5 de fev de 2010

Autonomia inca

Viajar pelo Peru através dos confortáveis ônibus peruanos é um respiro de comodidade, depois de se passar 10 dias andando em transportes apertados e desconfortáveis na Bolívia. Logo se percebe a diferença entre a infraestrutura urbana dos dois países, as cidades e casas são construídas e organizadas de maneira semelhante a que nos acostumamos a ver no Brasil. Os costumes, odores e sotaques mudam instantaneamente ao se cruzar um pequeno muro de pedra com oficiais que carimbam seu passaporte.

Depois de 12 horas de viagem a partir da fronteira se chega a Cusco, a ex-capital do império Inca em sua fase áurea nos séculos XIV e XV, e apontada como a cidade habitada mais antiga de toda a América. A lenda diz que Cusco foi fundada por um indígena de nome Manco Capac, após o lugar ser apontado pelo deus Sol em uma peregrinação realizada pelo Vale Sagrado incaico.

Pouco do esplendor original de Cusco é ainda encontrado, pois grande parte da cidade foi devastada pelos espanhóis, que declararam a vitória contra os incas na praça principal na figura de Francisco Pizarro, fundando a “Plaza de armas”. Hoje este e outros lugares históricos não são mais alvejados por espadas e cruzes, mas sim por constantes e intermináveis flashes vindo de turistas dos mais diferentes lugares do mundo.

A histórica Plaza de Armas em Cusco/ Foto de Elder Barbosa

Mochileiros sul americanos, aristocratas europeus e surfistas australianos se misturam em meio a toda uma variedade de serviços de lazer oferecidos na cidade. A oferta pode variar desde um pacote de viagem pelo Vale Sagrado, até maconha e bebidas alcoólicas a preços razoáveis. Por atrair um grande número de jovens, a antes cidade sagrada do deus Sol, é hoje um antro de diversão e festas moldadas aos gringos, que despejam seus dólares na capital inca. A quantidade de opções é tão grande, que são oferecidas bebidas de graça na porta de estabelecimentos, a fim de atrair um maior número de consumidores.

Cusco sempre se caracterizou por ser um local de resistência indígena após a conquista dos espanhóis, com várias insurgências que ainda hoje são referência para o movimento esquerdista latino-americano. O mais conhecido é o movimento de Túpac Amarú II, executado na hoje festiva “Plaza de Armas” quando buscava a independência indígena no século XVIII. A região ainda é caracterizada como opositora ao governo neo-liberal de Alan Garcia, já que ao contrário da próspero litoral do país, a região andina e amazônica é caracterizada como a mais pobre do Peru, com uma população maçiçamente constituída por camponeses.

Grande parte da renda das cidades andinas dos arredores de Cusco provém apenas do turismo, já que a região abriga o ápice do turismo sul-americano: a cidade perdida de Machu Pichu. Ao contrário do que se pensa, as ruínas de Machu Pichu estão há mais de 8 horas de Cusco, logo acima de uma pequena cidade turística chamada Águas Calientes que se assemelha muito à uma cidade de brinquedo.
Turistas contemplam monumento inca em Machu Pichu/Foto de Livia Alcântara

Machu Pichu, um antigo centro religioso inca onde residiam apenas sacerdotes, é um sítio arqueológico muito bem preservado. Pode-se ver na cidade, que só foi descoberta em 1911 por um pesquisador norte-americano, como eram as moradias e templos incas do século XV. A agricultura era muito avançada e adaptada ao ambiente andino, sendo administrada no modelo coletivo, prática que foi exterminada pelo império espanhol, provocando a escassez da produção de alimentos por um longo período de tempo na região. 

A beleza das ruínas e das lendas de Machu Pichu mascara a realidade enfrentada pelos moradores de Águas Calientes, que convivem diariamente com o descaso do Estado peruano. Segundo uma moradora da cidade, a linha férrea que interliga o centro turístico a Cusco foi privatizada por uma empresa chilena, que cobra preços irreais à condição financeira da população local. Quando estivemos na cidade, presenciamos protestos dos residentes da cidade contra a administração da linha férrea, por esta privilegiar a locomoção de turistas e seus dólares.

A visita por Cusco e Machu Pichu serve especialmente para se desconstruir a imagem das culturas pré-hispânicas que se tem no ensino médio do Brasil. Ao contrário do que se pensa, antes mesmo do império espanhol chegar a essas terras, se desenvolvia aqui independentemente uma sociedade muito avançada que rivalizava em muitos aspectos com a européia, cultivando seus próprios costumes e crenças. Uma civilização que tem muito a ensinar de sua autonomia para o povo latino-americano.  


Elder Barbosa e Lívia Alcântara

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