28 de dez de 2009

Do vestibular à educação de qualidade para todos

No próximo ano, o "Cursinho Pré-Vestibular Popular da UFV"* trará uma novidade. O fortalecimento do “grupo” Ética e Cidadania, que tem como proposta articular e desenvolver os três princípios que norteiam a ação do cursinho: educação popular, autogestão e interdisciplinaridade. Ética e cidadania, apesar de constar como uma disciplina na grade curricular do cursinho, tem o objetivo de ir além da disciplina, “de estar como um todo no cursinho”, como explica Marcio Carvalho, que é  graduando em história e ex estudante do cursinho popular de Passos. Hoje, Marcio é educador de dois cursinhos populares: o da UFV e o cursinho (do município) de Paulo Cândido.


Os cursinhos pré-vestibulares populares ganharam força na década de 90, no contexto de internacionalização da economia e conseqüente aumento da demanda do mercado de trabalho por ensino superior (Para saber mais  sobre  juventude, educação e trabalho, ler a monografia de conclusão do curso de direito "Jovens demais para o trabalho" de Lucas Ribeiro Prado, pdf). Os cursinhos populares inserem-se no debate da ineficiência da educação universalista e da necessidade de igualdade educacional. Ao lutarem pela democratização do acesso ao ensino superior, enfrentam um paradoxo: preparar o estudante para o vestibular, ao mesmo tempo em que lutam contra o próprio vestibular (como discutem Ernesto Grance e María Maneiro em “Pré-vestibulares populares, sua ação, seus desafios e seus paradoxos”, em pdf). É este paradoxo que leva os cursinhos populares a se diferenciarem dos cursinhos pré-vestibulares privados. Para os cursinhos populares, o acesso à universidade não é um fim. Buscam, antes de tudo, a formação de sujeitos críticos, que possam pensar a sociedade em que vivem e em especial o sistema educacional brasileiro. Fernando Chalabi, coordenador de gestão e planejamento do Cursinho Popular da UFV, explica que o cursinho tem o objetivo de atender trabalhadores e filhos da classe trabalhadora. Neste sentido, os educadores enfrentam o desafio de conciliar a dupla jornada dos estudantes: trabalho e estudo.

Nadir Zago, no artigo “Diferenças de acesso e de permanência no ensino superior: um estudo com estudantes universitários” (artigo em pdf), faz uma análise dos dados do vestibular de 2001 da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e conclui que: a “expansão do ensino não foi acompanhada de um processo de democratização que garantisse tanto o acesso quanto a permanência da população” no ensino superior. A autora chama atenção para o fato de que os estudantes de escola pública, que entram na universidade, e, que pertencem às classes menos favorecidas, ingressam nos cursos menos concorridos. O que Nadir Zago coloca em discussão é a concepção de democratização da educação, que, deve ser pensada,  ao mesmo tempo, quantitativa e qualitativamente. A pesquisa, feita a quase nove anos atrás, já indicava as tendências do sistema de educação brasileiro. Um e-mail divulgado no dia 30 de novembro de 2009, pelo Movimento dos Sem Universidade (MSU), traz um apanhado de notícias sobre a educação denunciando um contexto bastante problemático: aumentaram-se as vagas no ensino superior. Nas federais e estaduais percebe-se um crescimento de vagas ociosas, enquanto as particulares concentram a maior porcentagem dos estudantes que ingressaram no ensino superior. Abaixo algumas das manchetes:

Reuni: Em 2008, federais abriram 14.826 vagas (Portal UOL Educação, 27/11/2009)
As matrículas no ensino superior em 2008 cresceram 4,1%, taxa semelhante à do ano anterior (4,4%). As instituições privadas têm a maior parte, com 3,8 milhões (74,9%).

Cresce total de alunos em universidade ruim (Folha de São Paulo, 28/11/2009)
Instituições com notas baixas em avaliações federais tiveram aumento de 11% nas matrículas em 2008, segundo censo do MEC.

Matrículas caem em 6 das 10 maiores universidades do país (Folha de São Paulo, 28/11/2009)

Sobram 12 mil vagas em instituições públicas (Folha de São Paulo, 28/11/2009)
Nas estaduais, número de lugares ociosos aumentou 9%; nos estabelecimentos federais de ensino, mais do que dobrou. Motivos vão de desinteresse à falta de dinheiro ou de dificuldade de acompanhar aula, o que gera evasão, à pouca divulgação de cursos

Camila Zucon, geógrafa e mestranda em educação pela UFV, realizou o estudo "Cursinhos populares em movimento: articular e (re)conhecer contradições" (em pdf), onde busca compreender as formas de articulação dos cursinhos populares em movimentos sociais. A discussão é pertinente quando se procura entender o potencial de transformação dos cursinhos populares frente às carências no âmbito da educação brasileira.

*Optou-se por utilizar o nome "Cursinho Pré-Vestibular Popular da UFV" para diferenciá-lo dos outros cursinhos populares de Viçosa. O cursinho também é conhecido como "Cursinho Popular  do DCE", fazendo referência a  sua ligação com o movimento estudantil. 

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